Praticando o desapego

Não sei dizer se sou desapegada com roupas. Do que não gosto mais, me desfaço com facilidade, mas tenho peças de mais de dez anos que quero guardar pra sempre. Existem vários conselhos e regrinhas por aí pra determinar quando é a hora de desapegar das suas roupas, mas não concordo com a maioria, acho que cada um tem que fazer as suas regras.

Talvez a diferença principal entre o que leio por aí e o que acredito seja que eu não considero “necessidade” uma prioridade ao montar o armário. Claro, eu preciso de roupas pra não sair por aí pelada, mas eu tenho roupa porque eu gosto, porque me diverte, porque me expresso dessa forma. Nunca vou deixar de ter um sapato que mexe com o meu coração só porque eu não preciso dele. Também acho aquela coisa de “se você não usa há um ano, não vai mais usar” uma mentira. Eu tendo a colecionar roupas que acho especiais e não é todo dia que tenho ocasião pra usar, como vestidos mais elaborados e acessórios marcantes.

Por essas coisas os meus critérios pra desapegar das minhas roupas são bem particulares, e divido aqui pra quem estiver com dificuldades na hora de decidir:

Praticando o desapego

  • “Não cabe mais em mim, mas eu vou emagrecer”: Sou partidária de que as roupas devem caber na gente, não é a gente que deve caber nelas. Eu visto o mesmo manequim desde os 15 anos e tenho uma oscilação de peso bem leve, então quando uma roupa não está perfeita em mim ela está só um pouquinho apertada ou folgada. Já que comecei academia mês passado e sei que devo emagrecer, vou guardando pra ver se me cabem em breve. Agora, se como toda mulher já fez alguma vez na vida você veste 44, está feliz e mesmo assim fica se apegando a uma calça que você comprou no único mês da sua vida em que te coube uma 36, supera que nada de bom vai sair disso.
  • “Não gosto dessa peça, mas é útil para uma ocasião específica”: Eu ganhei de presente uma blusa comprada na gringa que não dava pra trocar. Eu odiei. Sou capaz de reconhecer que não é uma blusa feia (aliás, tem uma fila de amigas de olho nela), mas não tem nada a ver comigo e me sinto o horror quando visto. Acontece que ela é uma excelente blusa pra ocasiões mais formais como reunião com cliente e eu não tenho nada desse tipo no meu armário porque trabalho principalmente em casa e num mercado extremamente informal (sou designer). Acabo guardando porque ela já me salvou em mais de uma ocasião, mas assim que der vou substituir por uma blusa que cumpra a mesma função e que eu não odeie.
  • “Não gosto, mas foi presente”: Minha experiência é de que a pessoa nem lembra. Já me aconteceu, inclusive, de usar algo só porque ia encontrar a pessoa que me deu e ela perguntar onde eu comprei. Muitas vezes as pessoas compram presentes baseadas no que elas gostam, não no que tem a ver com você, especialmente se elas não te conhecem tão bem. Eu sou horrível com presentes e nunca ficaria chateada se alguém trocasse algo que eu dei. Aprecie o gesto e passe adiante.

Avós estilosas

  • “Não uso, mas era da minha avó”: Minhas duas avós eram super estilosas e eu herdei bastante coisa delas. Só que não faço muito o estilo “vintage” (nem o estilo “senhora de 80 anos”) e acabei ficando só com as bolsas e outros acessórios que gostava. Dá uma certa pena de se desfazer das coisas da sua avó, mas acho que só vale guardar se for uma peça muito especial, representativa de uma época ou do estilo dela, ou se você acha que não usa agora mas vai amar quando for mais velha. Ou ainda se for algo tão incrível que vale a pena guardar pra sua filha, se você acabar tendo uma. Das minhas avós, tudo que herdei e mantive eu ponho pra jogo e uso sempre.
  • “Acho essa peça linda, mas não tem nada a ver comigo”: Sempre enfrento esse dilema (que foi o principal motivo pra começar esse blog) mas não adianta sair de casa muito bem vestida, mas se sentindo fantasiada. Se você já experimentou com tudo que tem no armário, já transformou camisa em saia, já usou do avesso, cortou as mangas, tentou de tudo e mesmo assim se sente meio errada quando sai com ela, doe pra sua melhor amiga, pra sua irmã, pra sua prima. Assim você não fica tão chateada de desfazer de algo tão legal mas também não fica enchendo seu armário com algo que não te serve. O mesmo vale pra roupas que não te valorizam. Não adianta achar a roupa linda no cabide mas horrorosa no seu corpo.
  • “Não uso há dez anos, mas vai voltar à moda”: As coisas voltam sim à moda, cada vez mais rápido, mas elas SEMPRE voltam revisitadas. Por exemplo, eu tenho um monte de scarpins de bico fino de uns 10 anos atrás. Recentemente eles voltaram à moda, mas com o bico bem mais curto e discreto. Simplesmente não consigo mais usar aqueles bicões de matar barata na quina. Se for algo muito característico de uma modinha, é possível que não se traduza nunca mais. Se for algo incrível, com uma estampa maravilhosa e que dá pra fazer consertos e alterações, você deveria estar usando agora e não esperando a moda voltar. Afinal, estilo é atemporal e não regula com a semana de moda.
  • “Não uso há mais de um ano”: Como eu disse lá em cima, isso não quer dizer absolutamente nada. Pode ser que você não use porque faltou ocasião ou porque seu armário está tão zoneado que você esquece da existência dela. Pode ser um problema de rotatividade das suas roupas, da sua mania de usar sempre a mesma coisa. Se você ama, pode guardar. Agora, se você experimenta toda hora mas logo antes de sair acaba trocando, ou se você não tem expectativa de usar pelos próximos anos, é hora de desapegar.
  • “Gosto, mas não combina com nada que tenho”: Se você está num processo de reinvenção que nem eu, guarda. Daqui a pouco pode aparecer algo que combine. Ou você pode focar em encontrar coisas que combinem e trazer pro seu armário. Se você não acha que vai fazer nenhuma dessas coisas, essa peça tem que ir.
  • “Não tenho ocasião pra usar”: Como eu disse, gosto de colecionar roupas. Lembro de ter lido uma vez uma entrevista com a Gloria Kalil em que ela mostrava um sapato Dior que nunca tinha usado nem pretendia usar – era item de colecionador mesmo. Eu não faço isso porque além de não ser rica acho que moda é pra ser usada (e personalizada), mas entendo que o espírito é guardar objetos especiais, que têm significado. Se você tem essa relação com objetos e acha que isso vai te trazer alegria por um tempo considerável, vai guardando sem esquecer que existe. Experimenta, faz umas fotos, cria a ocasião pra usar. Se você não liga pra essas coisas, não fique esperando seu estilo de vida mudar e desapegue logo. Não seja a pessoa que se muda pra Sibéria e continua guardando o biquini fio-dental.

Jeans rasgado

  • “Adoro essa calça, é uma pena que já esteja tão rasgada que minha calcinha fica de fora”. Essa me toca aqui fundo no coração porque o jeans que mais amei em toda a minha vida eu comprei quando tinha 15 anos. Usei até ficar azul claro, até abrir buracos no joelho, até ficar toda remendada, até – literalmente – não dar mais pra usar porque não tinha mais bunda na calça, já tinha desintegrado. Sofrimento enorme me desfazer dela, mas não tem jeito: uma hora tudo tem que ir. Se suas roupas têm conserto, vá lá e conserte logo. Se já viraram trapo, só vai dar pra pano de chão mesmo.

Enfim, acho que no fundo a gente sabe o que realmente vale a pena, é só questão de aceitar se desapegar do resto. Se tem uma roupa que você veste de TPM, descabelada, com a cara oleosa e sem se depilar e ainda acha linda, é pra guardar pra sempre. E sobre quantas peças você deveria ter, acho que é do critério de cada um decidir quanto é necessário, quanto é legal de ter e quanto cabe no seu bolso/no seu armário/na sua vida. Não tenha medo de se desfazer do resto. Às vezes a gente romantiza uma roupa que se arrependeu de doar porque era tão bonitinha, mas na verdade ela já estava apertada ou a cor te deixava pálida. Se desfazendo do velho a gente abre espaço pra coisas novas e mais incríveis.

E você, tem mais dicas de como separar os desapegos do seu armário? Conta aí!

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